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Natureza e Economia

Neste podcast Oscar Motomura faz uma reflexão sobre economia considerando o princípio de que na natureza tudo compete e coopera ao mesmo tempo.

Há alguns anos, eu fui convidado para fazer uma palestra no World Future Society, nos Estados Unidos. O convite veio da Hazel Henderson, que é uma economista muito diferente, que vê a economia por outros olhos. Ela diz, por exemplo, que a economia que vemos nos jornais é só um pedaço do sistema produtivo de um país (que é a parte monetizável da economia), é a parte em que eu consigo colocar dinheiro, botar na balança, essas coisas todas, mas é só um pedaço. Tanto a área pública como a privada constituem, no clássico bolo da Hazel, o primeiro terço do bolo que é a economia monetizável.

A segunda parte ela chama de economia da solidariedade. As pessoas se ajudam mutuamente, por exemplo, em comunidades mais modestas vemos os moradores construírem uma casa em mutirão, economia da solidariedade. No momento em que o marceneiro dessa comunidade faz os armários do vizinho e o vizinho tem outra especialidade, as pessoas fazem um tipo de permuta, isso é um negócio que não aparece no PIB do país. Uma senhora que toma conta dos filhos de dez mulheres que vão trabalhar e, em troca, recebe um pedaço de cesta básica, um franguinho, uma dúzia de ovos etc., isso também é uma prestação de serviços, é ajuda mútua, é parte da economia da solidariedade que não aparece no PIB. Só apareceria no PIB se essa senhora que toma conta das crianças de dez mulheres constituísse uma creche formalmente e emitisse nota fiscal, aí apareceria no PIB. Em um país como o Brasil, é impressionante o tamanho da economia da solidariedade que Hazel diz que é parte fundamental do sistema produtivo de um país.

A terceira parte do bolo é a natureza que é nossa parceira. Precisamos montar uma fábrica de refrigerante, onde vamos montá-la? Vamos montar a fábrica em um lugar onde está a água de boa qualidade. A natureza dá uma série de coisas de graça para nós, seres humanos, e nós às vezes tratamos muito mal essa parceira excepcional que temos. Isso é um pouco da filosofia de Hazel Henderson, quando ela olha o sistema produtivo de uma nação por essa perspectiva.

Convidado por ela, fui falar um pouco sobre essa questão da solidariedade, a questão do bem comum, de todos buscarem o bem estar de todos, essa foi a minha palestra. E quando terminou a palestra, o auditório estava lotado, veio a fase das perguntas e um executivo americano se levantou e fez a primeira pergunta. Ele foi dizendo que o que eu tinha falado na palestra não tinha nada a ver com aquilo que se praticava nos Estados Unidos – a propósito, a maior economia do mundo. Ele disse: “aqui partimos do princípio de que se cada um fizer o melhor para si e se todos fizerem isso, o todo vai muito bem, obrigado”. Eu olhei para ele disse: “você está se referindo ao princípio atribuído a Adam Smith de que a ganância é boa, greed is good?”. Ele falou: “exatamente”. Nesse sentido, se nós fizermos o melhor para nós, o todo estará indo muito bem.

Foi nesse momento que, pela primeira vez, eu pensei de forma altamente intuitiva em um princípio que eu ouvi uma vez de que, na natureza, tudo compete e tudo coopera ao mesmo tempo. Aí eu criei essa história do leão, foi a primeira vez que eu contei essa história. Eu disse: “quando o leão está com fome, ele vai à caça, consegue pegar uma presa e a devora. No momento seguinte, ele vai ao lago beber água e lá estão vários animaizinhos, igualmente potenciais presas do leão. Aí ele olha, aliás, ele não olha, ele vai lá beber água. Os outros animaizinhos olham o leão e sabem que ele já está com a fome saciada e só está com sede. Então, eles permanecem no lago e compartilham o mesmo local com o leão. Agora, por que isso funciona?”.

Eu perguntei isso para o executivo que fez a pergunta sobre o que funciona e o que não funciona nos Estados Unidos. Eu disse “por que isso funciona na natureza?”. Eu deixei um tempo de silêncio porque o auditório não estava nem sabendo aonde eu ia chegar, e disse: “sabe por que esse negócio funciona na natureza? Porque o leão não tem freezer”. Nesse ponto, o auditório veio abaixo com as risadas. Mas eu elaborei um pouquinho mais e disse: “imaginemos que o leão tivesse freezer, seria um estresse tremendo porque até agora o leão só ia caçar quando tivesse fome; agora não, ele está estressadíssimo porque está o tempo todo no modo de caça porque ele quer acumular mais presas no freezer, porque ele agora está preocupado com o ranking que a revista X da floresta faz todo ano dos leões mais ricos da floresta. Ele está estressado, ele está acumulando, há outros leões que estão na competição e a essa altura instalou-se um estado de desequilíbrio brutal na floresta. Tem até leão morrendo de fome!

Para finalizar a minha resposta à pergunta, eu disse: “nós estamos no século 21, Adam Smith formulou a sua teoria séculos atrás e nós estamos ainda citando autores do século passado. Será que não está na hora de a gente começar a formular novas teorias econômicas para o momento que nós estamos vivendo, com o aprendizado incluído em função das coisas que não vêm funcionando há séculos no mundo inteiro?”. Temos John Nash que, na década de 1990, ganhou o Prêmio Nobel questionando Adam Smith. O questionamento fundamental do John Nash foi de que a formulação de Adam Smith estava errada porque na verdade o princípio deveria ser “sim, fazer o melhor para nós ao mesmo tempo em que fazemos o melhor para o todo”, e talvez essa seja a combinação que vai gerar os melhores resultados para todos e que viabilize o bem comum.

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