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As oportunidades que a pandemia oferece para os líderes

Em situações extremas surgem possibilidades extraordinárias para reafirmar o papel de quem tem iniciativa e lidera as transformações.

Tarcisio Cardieri
Consultor em Mudança Cultural, Desenvolvimento de Executivos, e Negociação de Alto Nível. Diretor da Amana-Key.

Eu nunca tinha vivido num mundo em pandemia, não tinha ideia de o que isso significa. Estou descobrindo a cada dia.

Acredito que todos nós estamos descobrindo. Alguns, com mais recursos materiais, intelectuais e emocionais, descobrindo formas de conviver com os desafios diários cada vez mais acentuados. Outros, mais privados de quase tudo na vida, procurando pelo menos manter a fé de que tudo vai ser superado e a vida poderá continuar.

Vendo os acontecimentos, podemos perceber que essas situações de alto estresse fazem com o que melhor de nós – solidariedade, compaixão, altruísmo – se manifeste. E o pior também – belicosidade, ganância, egoísmo. O que nos leva a uma reflexão muito séria sobre quais valores queremos que prevaleçam no mundo.

Podemos começar nos perguntando qual é o propósito de nossa existência. Para que vivemos? Quando nosso tempo se esgotar e estivermos vivendo conscientemente os últimos momentos de nossas vidas, em que estaremos pensando? Quais serão as recordações que nos deixarão orgulhosos de nós mesmos? Que nos deixarão ir em paz?

Podemos estar tendo um oportunidade única, que talvez poucos de nossos ancestrais tiveram. A oportunidade de decidir que mundo queremos. E ajudar a construí-lo. Um mundo baseado em valores nobres, em princípios de relacionamento que favoreçam a realização de grandes ideais. Temos oportunidade de sermos utópicos. De sair das distopias que ameaçam a existência do planeta e, consequentemente, da nossa espécie. Uma oportunidade única.

Quantas pessoas estarão pensando coisas assim? Eu acredito que muitas mais do que podemos imaginar. As pequenas e as grandes ações que pessoas individualmente estão tomando para ajudar o próximo, para servir as necessidades de outras pessoas, indicam que há muita gente querendo fazer diferente. E está procurando aproveitar o momento que a pandemia oferece.

O mais importante é ir para a ação. Começar a fazer alguma coisa. Não importa que seja pequena, diante de tantos desafios grandiosos. Mas começar a fazer. Eu, você, todas as pessoas que conhecemos e com quem podemos conversar a respeito disto.

Ações individuais, em grupos, ações envolvendo comunidades inteiras.

Ações micro, no ambiente imediato a nós. Voltadas para aliviar privações momentâneas, como comprar alimentos para quem não pode se deslocar, ou estruturais, como ajudar a construir moradias minimamente decentes.

Ações macro, que levem, por exemplo, a implementar um sistema de governo realmente voltado para oferecer amplas oportunidades para todas as pessoas, sem distinção. E assegurar uma renda mínima indispensável para uma vida decente.

Ajuda a construir organizações mais conscientes de seu poder na sociedade e das responsabilidades que o poder demanda. Em muitos casos, assegurar que os movimentos nobres que muitas estão adotando não esmoreçam depois que o período crítico da pandemia tenha passado.

Ir para a ação. Não esperar que alguém comece. Ser pioneiro. Ajudar alguém próximo que tem necessidades não atendidas. E, ao mesmo tempo, buscar influenciar largas parcelas da população e os governantes para trabalhar de fato pelo bem-estar de todos. Longe da manutenção dos privilégios que o poder confere. Tornar o uso do poder um instrumento para a busca do bem comum. De fato. Não de discurso.

É preciso ser estratégico para buscar todo esse envolvimento. E ter sempre em mente a busca de resultados efetivos. Não ficar na manifestação de intenções.

Mais do que fazer discursos, dar o exemplo pessoal.

Para isso é preciso assumir uma causa. A causa da solidariedade. E identificar “pontos de acupuntura”, onde o esforço focado produz resultados em todo o organismo social.

Onde podemos atuar? Se olharmos para as necessidades mais prementes (são tantas!), talvez consigamos identificar as nossas oportunidades.

Em saúde e saneamento, temos algo a contribuir? Quais das nossas competências podem se úteis para promover a saúde e os hábitos de higiene e limpeza em áreas mais necessitadas? Como podemos nos aproximar das comunidades mais carentes? Como podemos aprender com elas quais são seus principais desafios? E como podemos ajudar?

Em educação, o que podemos fazer para ampliar as oportunidades de acesso ao ensino da mais alta qualidade? Como podemos mobilizar nossos amigos para, juntos, promovermos a obtenção daquilo com que sonham os professores mais dedicados e apaixonados pela sua missão? Como podemos dar o melhor do nosso conhecimento para ajudar a educação voltada para o futuro, não para um passado que jamais vai voltar? Comum ajudar a formar pessoas para um mundo em transformação tão acelerada?

O que podemos fazer na área de habitação, outro ponto crítico da nossa realidade? Como podemos ajudar a criar programas habitacionais que realmente atendam as necessidades das populações que vivem em condições absolutamente precárias por não terem alternativa? Como podemos minimizar o sofrimento dos que estão nessa condição até que as políticas públicas aconteçam de fato?

Estes são alguns exemplos de campos de ação que estão à nossa frente, esperando nossa iniciativa.

Qualquer que seja a nossa escolha, seremos demandados a praticar uma competência absolutamente crítica.

A nossa capacidade de harmonizar interesses. Começando pela humildade de perguntar. Não nos colocarmos num pedestal, imaginando que temos todas as soluções, todas as respostas. Perguntar e saber ouvir genuinamente. Sem preconceitos, sem julgamentos, sem arrogância. Saber ouvir para conquistar o direito de apresentar opções, alternativas, outras ideias a serem avaliadas e decididas por quem queremos ajudar.

Ajudar é um ato de humildade, não de soberba. Se queremos de fato contribuir, temos de nos colocar como um recurso, não como detentores do saber. Como, aliás, deveríamos agir em todos os nossos relacionamentos.

Se conseguirmos esta mudança em nós mesmos, seremos líderes muitos melhores em todos os campos de nossa atuação.

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